quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Apresentação

Este trabalho é uma análise de obras arquitetônicas da cidade de São Paulo, com especial foco no MUBE (Museu da Escultura Brasileira). A escolha se deu a partir do interesse que a obra despertou em mim, especialmente pela a sua escala, inserção no espaço urbano e adequação à topografia do lugar. A visita em si, tratou-se da análise e vivência dos espaços construídos, exercício do olhar sobre os espaços públicos, registros fotográficos e reflexões sobre aspetos relevantes das obras visitadas.

O que se visitou

A visita começou na manhã de um dia do final de Novembro de 2009. Iniciou-se pelo SESC Pompéia, obra da arquiteta Lina Bo Bardi, seguindo-se uma série de obras de arquitetos como Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, Oscar Niemeyer, entre outros, numa seqüencia que já não me lembro.
Da arquiteta Lina, visitamos ainda o MASP – onde estavam sendo expostas as obras do escultor francês Rodin - e vivenciamos uma peça – de seis horas, diga-se de passagem – no Teatro Oficina.
Outras obras que despertaram meu interesse foram as do arquiteto Paulo Mendes, como a casa do mesmo, o MUBE e a galeria; obras do Vilanova Artigas, como a FAU-USP e as casas que pela sua simplicidade parecem pequenos tesouros perdidos entre as imponentes obras do centro de São Paulo como o Copan e o Edifício Itália.
Há que dizer o quanto faz bem aos olhos ver como uma prisão - um lugar onde se praticou tanto sofrimento - com uma intervenção arquitetônica bem sucedida e uma boa aceitação e adaptação dos moradores locais e visitantes, se torna um lugar tão aprazível. Da mesma maneira, dói ver como grandes obras de grandes arquitetos como a FAU-USP de Artigas são negligenciadas, no que diz respeito à manutenção e se tornam no que a FAU se tornou: uma escola de formação de arquitetos degradada – como o velho ditado: “casa de ferreiro”...
Antes ou depois nessas andanças pela cidade de São Paulo, visitamos a Sala São Paulo, uma obra que chamou atenção pela tentativa de não descaretirazação - relação do existente com o novo - e pela tecnologia usada.

Registro


O Museu Brasileiro da Escultura Marilisa Rathsan é um museu projetado por Paulo Mendes da Rocha, arquiteto modernista, com um jardim idealizado por Burle Marx e exposição de esculturas a céu aberto. Inaugurado em 1995, não possui acervo fixo, apenas exposições temporárias nacionais e internacionais com área de aproximadamente 1.400 m². Possui sala de exposições, aulas de arte e auditório. Os Ateliês Oficinas com 600 alunos possuem cursos e workshops ministrados por artistas plásticos, críticos e historiadores de arte.[1] O auditório tem capacidade para 200 lugares e realiza mostras, filmes, slides, danças, debates, congressos e outros.
Situado na zona residencial da cidade, o MUBE foi imaginado como um museu de escultura e ecologia. Seu destino seria abrigar uma “notícia da paisagem”. Foi imaginado como um jardim, como uma sombra e um teatro ao ar livre. A edificação principal não é aparente a céu aberto, a não ser por um alpendre, grande prisma reto, ponto de referência e parâmetro de escala entre as esculturas e o observador.
O MUBE é o resultado da mobilização dos moradores de um dos bairros mais nobres de São Paulo contra a construção de um Shopping Center. Liderados pela criadora, fundadora e presidente da Sociedade Amigos do Museu (SAM), Marilisa Rathsan, sendo que após 20 anos a Prefeitura cedeu em comodato a construção.


[1] Macamp variedades, Mube (2008).

Projeto e Estrutura



A representação da ecologia pelo jardim de Burle Marx é parte integrante da área de exposições ao ar livre idealizado pelo Arquiteto pelo fato do jardim ser o Museu. Para não se tornar uma construção convencional com recuos laterais, frente e fundos e analisando as condições topográficas do terreno, o Paulo Mendes da Rocha definiu um Museu semi-subterrâneo aproveitando o desnível e a construção aflora na entrada pela rua Alemanha. Essa solução auxilia a acústica e térmica da área enterrada. A solução para a proteção da área externa foi uma grande e perfeita horizontal, perpendicular a avenida Europa. A altura tem referências á escala das esculturas e escala humana de 2,30m – o que faz com que a pessoa não se sinta “uma miniatura” e sim seja tomado e faça parte do espaço.
Há o corte que dá a idéia de espaço contínuo. Se o corte é o rebatimento do terreno e se a planta é o rebatimento do lote, o resultado é que retira o lote de sua condição de mero recorte no mapa urbano, ao restituir o corpo do terreno. A extensa viga que atravessa solta o projeto, sem função estrutural, sustenta o que está em baixo, a superfície construída, e mantém uma tensão, entre a memória plana do antigo terreno e a sua nova forma. Essa grande viga protendida foi criada, porque a intenção do arquiteto era colocar uma pedra no céu, como as pedras de Stonehenge.
Ao nível da grande praça, a extensa linha da laje (60mx20m), muito baixa como que comprime sob ela o seu negativo, uma faixa vazia. A proporção quase 1:1 entre a altura da viga e o pé direito (2m x 2,5m) produz, assim, uma espécie de compressão do olhar em direção ao piso, que nos leva a descer, pouco a pouco, até o interior do museu. Percebe-se nesse momento que a dimensão do grande pilar (4mx12m) faz dessa marquise a medida horizontal e vertical do terreno, ou seja, uma coordenada cartesiana. É por isso que não se pode entendê-la.
O projeto destrói, assim, a primeira impressão, a de uma superfície estática sobre a qual um objeto vem pousar.
Na cota mais baixa do terreno, a praça de entrada revestida com um mosaico branco é uma mancha clara a dissolver a gravidade da massa de concreto que desce verticalmente sobre ela. De seu lado, na cota mais alta, a lâmina d’água no ângulo extremo do lote não espelha nada, é antes uma reverberação de luz que parece agora vir de baixo para cima, como a recortar um vazio no piso da praça superior. Vista da esquina, ao nível da rua, dela somente resta uma pequena luminosidade sobre a empena opaca do concreto, uma imagem fluida da memória horizontal do terreno. A antiga superfície está assim presente e ausente ao mesmo tempo.
A ecologia do jardim de Burle Marx não é apenas um jardim do Museu, mas parte integrante da área de exposições ao ar livre idealizado pelo Arquiteto Paulo Mendes da Rocha pelo simples fato do jardim ser o Museu.

Leitura do olhar sobre o espaço público


Um espaço público é, em princípio, um espaço onde todos podem usufruir. O MUBE é um espaço em que a arte é não apenas o tema, mas o veículo a transmitir uma comunicação da qual pretende-se que possa vir a ser compreendida por todos e, portanto, acessível ou à disposição de todos. Ao refletir sobre quem são esse “todos”, faz-se necessário abordar o espaço público na discussão da esfera pública.
Habermas, ao pensar a dimensão da esfera pública, considera que sua origem está na reunião burguesa de indivíduos livres e privados.

A esfera pública neste sentido é plural, constituída por espaços de compreensão de pessoas – a literatura, a cultura, a conversação, a política, a cidade. Esses espaços tornados públicos passam a ser palco do raciocínio público provindo das subjetividades da sociedade, que por meio da argumentação de idéias, estabelecem um contato social que pretende a manutenção de seus interesses e o entendimento desta mesma esfera pública: vários deles são espaços culturais que, por si, tem como objeto final a cultura – aqui já assumindo forma de mercadoria – e sua discussão a partir das quais o público entende a si mesmo (SPERLING, 2001).


Isto é, somente quando indivíduos livres conseguem estabelecer um contato em que suas idéias são compartilhadas, independente do Estado, constitui-se uma esfera pública. O MUBE, como um museu a valorizar e assegurar um espaço para a arte, é expressão da esfera pública. Principalmente, ao refletir sobre a construção a partir da mobilização de moradores do bairro contra a privatização do espaço público pela construção de por um shopping center.
Nesse sentido, é importante para este trabalho a noção dos espaços culturais como lugares de efetivação de uma esfera pública, já que ao comportar espaço para veiculação da arte e da cultura esses espaços agregam a possibilidade de permitir a expressão da autonomia de indivíduos privados que pensam, discutem e emitem uma opinião pública.
Assim, a acessibilidade da arte a todos e o não cerceamento do público é fator de emancipação social. Ao se tornar acessível publicamente, a arte possibilita seu próprio questionamento e o questionamento das condições do próprio público. Todos devem poder participar. Ao se efetivarem como espaços públicos, os espaços culturais passam a valorizar o julgamento do leigo em detrimento de um grupo de especialistas do conhecimento artístico, que por isso também se destacam socialmente; ao reconhecer a autoridade do argumento, a discussão sobre a arte torna-se meio da sua apropriação. O museu torna-se instrumento de emancipação da sociedade tanto em sua dimensão crítica quanto em sua dimensão ativa quando possibilita que a liberdade das discussões seja concretizada.

Análise reflexiva

Paulo Mendes da Rocha pretendeu construir sua obra como uma resposta ao entorno urbano. A arquitetura, como forma de intervenção urbana, pode promover a reapropriação do espaço público pela população e envolver a comunidade numa reflexão sobre o sentido da cidade e seu uso. Se podemos apontar a arquitetura como a arte de organizar e construir espaços, é preciso demonstrar a relação entre a concepção, a produção e a prática do espaço por meio das relações sociais, a que se destina sua realização.
A idealização de Paulo Mendes da Rocha pressupõe que o indivíduo urbano organize sua vida a partir das referências da solidariedade e da pluralidade, em que todos se tratem como iguais. A praça do museu como lugar de exposição de pluralidades e também museu e teatro ao ar livre, além de abrigo para exposições temáticas de esculturas, tornando-se prolongamento do espaço de discussões de diversidades e de formação de um público, funciona como memória da cidade, estendendo o museu ao próprio território urbano, explicitando-se como uma esfera pública.
A visão de Paulo Mendes da Rocha, da arquitetura produzida em intervenções urbanas, a partir de um sentido holista e bem modernista, percebe o território da cidade como lugar das relações humanas, o entendimento do ser e sua natureza coletiva, a dimensão emancipadora da racionalidade para a superação dos conflitos humanos. Suas obras devem possibilitar a existência em coletividade.
O MUBE parte de um “gesto essencial e primordial, de algo antigo que impõe sua modernidade: a idéia de abrigo, de primeira construção, do gesto inicial de Stonhenge, uma grande viga suportada por dois grandes pilares laterais que se encaixa num continuum espacial.” Construção, paisagem e cenário fundidos e entrelaçados como proposição de continuidades: construção e paisagem como cenário, construção e cenário como paisagem, e paisagem e cenário como construção. Para Paulo Mendes da Rocha, a Modernidade passa pela condição do homem como um ser urbano, habitante das cidades, solidário com seus congêneres e com o espaço que habita. Por isso traça identidades entre a idéia de casa e de cidade como abrigo da humanidade.
A continuidade espacial pretende ser mais que a continuidade visual entre um dentro e um fora, mas a possibilidade de acesso físico e contato heterogêneo em superfícies urbanas pensadas como territórios ou regiões contínuas. A coexistência de espaços arquitetônicos orientáveis com espaços não-orientáveis – partindo do entendimento da arquitetura como uma das formas de construção da cidade, é uma forma de apropriação do urbano, o resultado da ação constante a partir da diversidade caminhando para uma necessária unidade: a criação da identidade e a promoção da liberdade.
Tal como aponta Sperling (2001) o MUBE resulta da intenção de continuidade material de recortes e dobras de superfícies, em planta ou em corte modelam a superfície do terreno, dobram o pórtico e formam a caixa semi-enterrada. Se o visível parte da continuidade material entre ruas e terreno, pórtico e praça, praça e museu, caixa do museu e empenas de divisão interna, promove com isso a continuidade espacial entre cidade e Museu, circulação externa, salas de exposição e circulação interna, fora e dentro, em cima e embaixo. As possibilidades de identificação praça-museu e museu-praça, de percepção de continuidades espaciais dentro-fora, em cima-embaixo (partindo do proposto em projeto, onde o museu teria poucas contenções físicas) e da continuidade de circulações possíveis entre praça-museu-praça-museu possibilita que se perceba a construção arquitetônica como um continnum que permite identificar novas relações entre o habitante da cidade e o espaço urbano.

Considerações finais

Paulo Mendes da Rocha imprime em suas obras a visão da arquitetura inserida no contexto urbano e na vivência da cidade. Possui a percepção de que o espaço público deve contemplar a pluralidade de indivíduos e a solidariedade nas relações sociais. É possível apontar que há uma visão de integração “orgânica” entre a obra, o urbano e a coletividade.
O arquiteto pretendeu criar um marco na cidade, respeitando o bairro em seu entorno e promovendo uma continuidade entre obra e urbano. O MUBE, como espaço público construído e inserido na paisagem urbana, possibilita a expressão da esfera pública. Nesse sentido, a condição de acesso e disponibilidade do museu e consequentemente da cultura a todos, permite que a coletividade encontre a abertura para formar uma dimensão crítica da obra e da sua relação com a cidade.

Referências bibliográficas

HABERMAS, J. Mudança estrutural da esfera pública. Tempo Brasileiro: Rio de Janeiro, 1984.

MACAMP. Variedades, Paulo Mendes da Rocha. Disponível em: http://www.macamp.com.br/variedades/Mube.htm. Acesso em 09 de janeiro de 2010.
SPERLING, D. Museu Brasileiro da Escultura, utopia de um território contínuo. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq018/arq018_02.asp. Acesso em 10 de janeiro de 2010.