quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Análise reflexiva

Paulo Mendes da Rocha pretendeu construir sua obra como uma resposta ao entorno urbano. A arquitetura, como forma de intervenção urbana, pode promover a reapropriação do espaço público pela população e envolver a comunidade numa reflexão sobre o sentido da cidade e seu uso. Se podemos apontar a arquitetura como a arte de organizar e construir espaços, é preciso demonstrar a relação entre a concepção, a produção e a prática do espaço por meio das relações sociais, a que se destina sua realização.
A idealização de Paulo Mendes da Rocha pressupõe que o indivíduo urbano organize sua vida a partir das referências da solidariedade e da pluralidade, em que todos se tratem como iguais. A praça do museu como lugar de exposição de pluralidades e também museu e teatro ao ar livre, além de abrigo para exposições temáticas de esculturas, tornando-se prolongamento do espaço de discussões de diversidades e de formação de um público, funciona como memória da cidade, estendendo o museu ao próprio território urbano, explicitando-se como uma esfera pública.
A visão de Paulo Mendes da Rocha, da arquitetura produzida em intervenções urbanas, a partir de um sentido holista e bem modernista, percebe o território da cidade como lugar das relações humanas, o entendimento do ser e sua natureza coletiva, a dimensão emancipadora da racionalidade para a superação dos conflitos humanos. Suas obras devem possibilitar a existência em coletividade.
O MUBE parte de um “gesto essencial e primordial, de algo antigo que impõe sua modernidade: a idéia de abrigo, de primeira construção, do gesto inicial de Stonhenge, uma grande viga suportada por dois grandes pilares laterais que se encaixa num continuum espacial.” Construção, paisagem e cenário fundidos e entrelaçados como proposição de continuidades: construção e paisagem como cenário, construção e cenário como paisagem, e paisagem e cenário como construção. Para Paulo Mendes da Rocha, a Modernidade passa pela condição do homem como um ser urbano, habitante das cidades, solidário com seus congêneres e com o espaço que habita. Por isso traça identidades entre a idéia de casa e de cidade como abrigo da humanidade.
A continuidade espacial pretende ser mais que a continuidade visual entre um dentro e um fora, mas a possibilidade de acesso físico e contato heterogêneo em superfícies urbanas pensadas como territórios ou regiões contínuas. A coexistência de espaços arquitetônicos orientáveis com espaços não-orientáveis – partindo do entendimento da arquitetura como uma das formas de construção da cidade, é uma forma de apropriação do urbano, o resultado da ação constante a partir da diversidade caminhando para uma necessária unidade: a criação da identidade e a promoção da liberdade.
Tal como aponta Sperling (2001) o MUBE resulta da intenção de continuidade material de recortes e dobras de superfícies, em planta ou em corte modelam a superfície do terreno, dobram o pórtico e formam a caixa semi-enterrada. Se o visível parte da continuidade material entre ruas e terreno, pórtico e praça, praça e museu, caixa do museu e empenas de divisão interna, promove com isso a continuidade espacial entre cidade e Museu, circulação externa, salas de exposição e circulação interna, fora e dentro, em cima e embaixo. As possibilidades de identificação praça-museu e museu-praça, de percepção de continuidades espaciais dentro-fora, em cima-embaixo (partindo do proposto em projeto, onde o museu teria poucas contenções físicas) e da continuidade de circulações possíveis entre praça-museu-praça-museu possibilita que se perceba a construção arquitetônica como um continnum que permite identificar novas relações entre o habitante da cidade e o espaço urbano.

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